Desmame (Gentil)

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O desmame por si só já é um tema bem delicado para a mãe e o bebê, seja pelo constante sentimento de culpa que nós mães temos todo o tempo, pelas dúvidas e medos de como o bebê lidará com a mudança, ou pelos diversos pitacos que aquela amiga, vizinha, familiar e colega acabam por dar (muitos deles com as melhores intenções).

Realizei algumas pesquisas na internet quando comecei a pensar em realizar o desmame do meu filho e apesar de haver algumas teorias que abordam o assunto, senti um pouco de falta de relatos de mães que passaram por essa situação quando se tratavam de bebês que desmamaram com idade maior que 1 ano.

Pois bem, diante disso, resolvi contar para outras mães (e pais) como foi esse processo de desmame, incluindo os medos, o sentimento de culpa e tudo mais que vivi naquele período.

Para começar, é importante dizer que amamentei exclusivamente até praticamente os 6 meses de vida do meu filho (já que com 5 meses e meio dei início à oferta de sucos durante o dia), ou seja, o vínculo da amamentação era muito grande para mãe e filho já que esteve presente desde o seu nascimento. Como tive que colocá-lo na creche aos 7 meses de vida, por causa do meu trabalho, passei a dar de mamar apenas uma vez a tarde durante a semana (ele ficava na creche das 10:30h às 18:30h e era quase em frente ao meu local de trabalho), e no período da noite, madrugada e manhã eu amamentava sempre que ele quisesse (em livre demanda). Nos finais de semana, dava de mamar quantas vezes ele solicitasse (geralmente eram muitas).

Essa rotina funcionou até ele completar quase 1 ano e 4 meses, pois com esta idade nos mudamos de cidade e a nova creche ficava distante do meu trabalho, de modo que parei de amamentar no período da tarde (de segunda a sexta).

Apesar disso, todas as vezes que eu ia buscá-lo na nova creche, assim que me via, queria desesperadamente mamar (eu encarava isso como um ato muito mais psicológico, que dizia respeito ao vínculo mãe-filho, do que um ato fisiológico, ligado à fome, pois o jantar era sempre ofertado às 17h e o horário que eu ia busca-lo era sempre às 18h). Sendo assim, todas as vezes que chegávamos em casa, à noite, ele mamava. Solicitava também antes de dormir, uma ou mais vezes de madrugada e pela manhã quando acordava.

Vale ressaltar que eu sempre amei amamentar o meu filho, era algo muito prazeroso, muito nosso, quase sagrado, que me deixava tão próxima dele como se fossemos um só. Portanto, podem imaginar o quão sofrido foi para mim cogitar desmamá-lo.

No início tinha medo de como ficaria nossa relação. Enfraqueceria? Como ele me viria nesse processo? De mãe à vilã? Enfim, os pensamentos iriam dos mais normais aos mais catastróficos (rsrs). Lembro também que um dos meus medos era de ele se recusar a comer outro alimento (saliento que ele comia bem – boa quantidade, texturas e cores variadas) por protesto ao desmame.

Porém, o que mais me preocupava, era quanto o desmame poderia afetá-lo psicologicamente, já que um ato meu (e eu me sentia egoísta em pensar em desmamá-lo) poderia trazer consequências ao comportamento dele, à nossa relação mãe-filho e à dinâmica social e familiar.

Importante salientar que meu marido me apoiou em quaisquer decisões que nesse sentido eu tomaria. Ele entendia quão difícil era para mim o processo e foi mais ouvinte do que opinativo no cerne da questão. Mas lembro bem do momento em que, enquanto conversávamos sobre o assunto, ele me disse que achava que nosso filho estava psicologicamente mais preparado do que eu.

Essa frase, então, me fez pensar, me questionar, ponderar, até o dia que eu me senti realmente muito despreparada para atravessá-la, momento em que eu resolvi me preparar para passar por todo o processo.

Imaginei, no início, ter de recusar dar o peito para meu filho em diversas ocasiões, no choro que viria com a recusa, nos tantos protestos, o que gerava antecipadamente o sentimento de culpa. A bendita/maldita culpa que acompanha nós mães constantemente na maternidade.

Em meio a toda essa turbulência, li a respeito do desmame abrupto, natural e o gentil. De forma sucinta, o desmame abrupto é aquele em que as mamadas são retiradas de uma só vez – abruptamente, de uma hora para outra, sem dar “ouvidos” à criança no processo. O desmame natural seria o oposto, isto é, a criança escolhe o momento do desmame, ela quem decide a hora de parar, tendo o processo centrado somente nela. E, por último, o desmame gentil, que foi aquele o qual me identifiquei, que diz respeito ao desmame gradual, em que se respeita o momento de ambos – mãe e criança, porém com o processo sendo conduzido pela mãe.

“Mas, Ana Paula, qual foi o pontapé para que você iniciasse efetivamente o desmame (gentil), já que a decisão já estava 70% tomada? A que se deveu esses 30%?”

Resposta: Orientação profissional da psicóloga da creche.

No dia 14/08/2017, em uma conversa entre psicóloga, mãe e pai, todas as minhas inseguranças, o meus medos, as minhas angústias foram ouvidos, amparados e orientados no sentido de obter êxito no processo do desmame. Eu tenho total certeza de que os 30% que faltava para que eu iniciasse o processo foi tão ou mais importante que os outros 70%.

Sendo assim, a partir daquele dia iniciei o desmame primeiramente através de uma conversa aberta entre mim e meu filho, no sentido de mostrar o quão crescido ele estava, tentando lhe dar a segurança necessária para o êxito do processo.

E, então, durante nossa viagem de férias (que ocorreu 3 dias após àquela conversa), as mamadas passaram a se concentrar apenas nas madrugadas e no momento de acordar, ou seja, não dormia mais com o peito e durante a tarde também não mamava. E o mais incrível, por conta da agitação do momento, da diferente rotina das férias, era o fato de que ele não pedia para mamar, se satisfazendo com outros alimentos e, inclusive, com o leite artificial (que já fazia uso esporádico com 1 ano e 4 meses).

Foi então que, surpreendentemente, no dia 20/08/2017, ele acordou na madrugada à procura do peito, momento em que eu resolvi voltar com aquela conversa anterior, isto é, de que eu estava ali com ele, de que ele não precisava mamar naquele momento, de que iríamos dormir juntos e, tornando a ocasião propícia, ele segurou o meu braço, deitou e dormiu até de manhã. Na manhã, então, tomou o leite artificial (no copinho de transição) e a partir daí não solicitou mais o peito, não pediu mais para que o amamentasse, como se tivesse saído definitivamente dessa etapa e avançado para outra, tudo de forma tranquila, recíproca, amorosa e gentil.

Importante mencionar que o que mais me surpreendeu, além de quão rápido foi o processo na prática, foi a mudança de comportamento dele em termos de amadurecimento linguístico, social e da fala. Sinto como se tivesse contribuído para um novo estágio, propiciando a ele mais segurança, maturidade e independência.

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